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Resíduo de um, poderá ser a matéria-prima de outro

Entrevista com o Director da CEIFA, João Caixinhas; publicada no suplemento AMBIENTE E RECURSOS NATURAIS, da edição de “O Primeiro de Janeiro”, de terça-feira, 8 de Junho de 2004

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suplemento AMBIENTE E RECURSOS NATURAIS, da edição de “O Primeiro de Janeiro”, de terça-feira, 8 de Junho de 2004

 

Janeiro Caderno Dossier > Ambiente e Recursos Naturais

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CEIFA - Centro de Estudos, Informação e Formação para o Ambiente, Lda

Resíduo de um, poderá ser a matéria-prima de outro


Tendo em conta que são precisas cada vez mais soluções preventivas e não só de fim de linha em matéria de preservação do meio ambiente, a CEIFA Ambiente surgiu para dar resposta a alguns problemas com que as empresas se deparam na sua actividade diária. Em entrevista a “O Primeiro de Janeiro”, João Caixinhas, director da CEIFA Ambiente, apresenta a actividade desta PME de serviços de consultoria em ambiente, que pretende alertar que os resíduos deverão ser encarados não como um problema mas sim como um desafio.
“Encontrar soluções “win-win” eficientes do ponto de vista económico e ecológico para os problemas ambientais em Portugal”. É desta forma que a CEIFA Ambiente, Lda se apresenta na sua página oficial, em http://www.ceifa-ambiente.pt. “O nosso objectivo é promover actividades e iniciativas orientadas para um desenvolvimento sustentável em Portugal”. À medida que a entrevista se desenrola, João Caixinhas vai enchendo de significado estas palavras com a apresentação daquela que tem sido a actividade desta PME de consultoria desde que foi fundada, decorria o ano de 2000. Sendo consultora na área do ambiente, a CEIFA esforça-se por “tornar visível o invisível, estudando as situações de conflito entre o desenvolvimento económico e a protecção do ambiente e divulgando informações sobre os progressos científicos e tecnológicos que permitem resolvê-las”.
“Pensar globalmente e agir localmente” poderia ser o slogan da empresa uma vez que, por exemplo, “a gestão dos resíduos não tem sentido se não tiver em conta a gestão dos materiais”, ressalva João Caixinhas. O projecto Wambuco – European Waste Manual for Building Constrution (Manual Europeu dos Resíduos de Construção e Demolição) é disto um bom exemplo. Os resíduos resultantes do fluxo dos RC&D (resíduos da construção e demolição), na União Europeia, segundo Symonds (COM(2003) 301 final, de 27/5/2003) atingem o volume de 180 milhões de toneladas por ano, dos quais apenas 28 por cento é reciclado ou reutilizado. De acordo com as conclusões do projecto Wambuco – que ainda não terminou – é possível diminuir o volume de resíduos produzidos se existirem preocupações ambientais por parte dos donos das obras, que, segundo a legislação, e de acordo com o princípio do “poluidor-pagador” tem de gerir este fluxo. Os testes de geração de resíduos realizados no CENFIC- Centro de Formação Profissional da Indústria da Construção Civil e Obras Públicas do Sul permitiram concluir que houve “Redução da quantidade de resíduos produzidos (cerca de 39 por cento); O tempo de execução das tarefas não foi alterado quando implementado o protocolo ambiental”. Além disso, “podemos, portanto, afirmar que um plano de gestão de resíduos em obra reduz substancialmente os resíduos produzidos, sem prejuízo da produtividade em obra”. Segundo João Caixinhas, é também importante olhar para as soluções que permitem reduzir o volume de resíduos. “O COM anteriormente referido (para uma estratégia temática de prevenção e reciclagem de resíduos) diz que temos estado a trabalhar muito em soluções de fim de ciclo”, como por exemplo a reciclagem. O director da CEIFA Ambiente dá um exemplo concreto relacionado com o projecto WAMBUCO – as paletes usadas no transporte de materiais normalmente são queimadas mas poderiam ser devolvidas, por exemplo. “Podendo assim entender-se a afirmação de que os resíduos são, antes de mais, um indicador de desperdício”. As preocupações ambientais poderão não significar necessariamente e só custos adicionais.
“O desafio ambiental tem que ser encarado de uma forma dupla: ecoeficiência económica e ambiental. Ao diminuirmos o volume de resíduos produzidos numa obra estaremos a rentabilizar, pela diminuição de custos de transporte e destino final, uma exigência ambiental”.
Em todo este processo é importante a formação das pessoas, no caso do projecto WAMBUCO, nos testes realizados no CENFIC, concluiu-se que a experiência profissional é um factor importante, uma vez que os formandos sem experiência de obra produzem o dobro do resíduo dos com experiência e, que a formação adquirida, independentemente da experiência inicial, diminui o desperdício e desta forma os resíduos produzidos.

“Do porco ao camarão”
João Caixinhas considera que o ambiente é um mercado emergente. “O ambiente é um bom pretexto para acabar com algumas ineficiências. Temos necessariamente que adquirir uma visão diferente de organizar o trabalho e encontrar soluções. Por exemplo, trabalhar a ideia de que aquilo que é resíduo de um pode ser matéria-prima de outro”. Segundo o director da CEIFA Ambiente, os exemplos desta política são imensos. “Temos um projecto que consiste na aplicação desse princípio: através do aproveitamento dos dejectos da suinicultura, produzindo biogás, continuando a aproveitar a fracção resultante de resíduos em tanques para cultivo de algas, e utilização dessas algas na piscicultura, como alimento natural de peixes e camarões”. É uma forma de dar outra finalidade aos resíduos criando, simultaneamente, mais-valias.
João Caixinhas defende ainda uma política dos resíduos que tenha em conta o princípio de proximidade. “Quando se produz um resíduo não posso transportá-lo para muito longe porque isso implica mais consumo de energia, mais problemas de transporte. Ou seja, mais uma vez a importância da redução da geração dos resíduos é a de se desenvolver soluções em todo o fluxo dos RC&D, diminuindo os impactes ambientais associados”. Nesse sentido, o director da CEIFA Ambiente não compreende como se continua a fazer a infraestruturação de redes de saneamento básico em locais recônditos quando se poderiam encontrar soluções ambientais e de saúde pública mais eficazes como por exemplo a reciclagem local das águas pluviais e o confinamento também local das águas residuais (recorrendo a processos tecnológicos avançados, já existentes no mercado português), sem haver a necessidade de construir quilómetros e quilómetros de redes de saneamento.
O mais grave, na opinião de João Caixinhas, é que esses quilómetros e quilómetros de redes de saneamento “utilizam como meio de auto-limpeza e transporte um recurso extremamente precioso que é a água. Tendo depois de fazer infraestruturas para tratar essa água quando ela poderia ser aproveitada, por exemplo, para adubar os campos”.



Outros projectos
Inicialmente, a CEIFA Ambiente surge para poder concorrer a projectos europeus relacionados com a área do ambiente e com a gestão integrada de resíduos. Aqui integra-se o projecto WAMBUCO, ainda em curso, e os projectos AIRP - Integração Adaptativa da Investigação e Política para um Desenvolvimento Sustentável, Perspectivas para a Área Europeia de Investigação e ESTO - Investigação Científica Nacional e Desenvolvimento sustentável: um panorama das iniciativas nacionais de investigação científica para suporte a um desenvolvimento sustentável. No entanto, a empresa rapidamente alargou a sua actividade a outras áreas, tendo participado no projecto SOJA - baseado na teoria de redes de actores actuando ao longo de cadeias de fluxos no comércio internacional.
Em 2004, a CEIFA Ambiente já concorreu a mais quatro projectos europeus, todos em parceria com outras instituições e PME, tanto portuguesas como Europeias. “Esses projectos permitem estabelecer redes; realizar tarefas coordenadas, em parceria com outras entidades. “Somos uma pequena empresa que através da sua capacidade em estabelecer parcerias, consórcios em rede ou conglomerado de empresas busca as sinergias, mais valias e, nos casos onde seja necessário”, salienta João Caixinhas. Paralelamente, a empresa presta consultoria ambiental a empresas e instituições na procura da ecoeficiência económica e ambiental.

by WebAdmin last modified 2007-02-04 16:38

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